Autor: José Cardoso Pires. Nome da obra: UMA SIMPLES FLOR NOS TEUS CABELOS CLAROS «Mas a meio caminho voltou para trás, direita ao mar. Paulo ficou de pé no areal, a vê-la correr: primeiro chapinhando na escuma rasa e depois contra as ondas, às arrancadas, saltando e sacudindo os braços, como se o corpo, toda ela, risse. Uma vaga mais forte desfez-se ao correr da praia, cobriu na areia os sinais das aves marinhas, arrastou alforrecas abandonadas pela maré. Eram muitas, tantas como Paulo não vira até então, espapaçadas e sem vida ao longo do areal. O vento áspero curtira-lhes os corpos, passara sobre elas, carregado de areia e de salitre, varrendo a costa contra as dunas, sem deixar por ali vestígios de pegada ou restos de alga seca que lhe resistissem.» «Marcaste o despertador» «Hã?» «O despertador, Quim. Para que horas o puseste?» «…E tudo à volta era névoa, fumo do mar rolando ao lume das águas e depois invadindo mansamente a costa deserta. Havia esse sudário fresco, quase matinal, embora, cravado no céu verde-ácido, despontasse já o brilho frio da primeira estrela do anoitecer…» «Desculpa, mas não estou descansada. Importas-te de me passar o despertador?» «O despertador?» «Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir buscar. És de força, caramba.» «Pronto. Estás satisfeita?» «Obrigada. Agora lê à vontade, que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal não lhe tinhas dado corda… Que horas são no teu relógio? Deixa, não faz mal. Eu regulo-o pelo meu.»