Thursday, October 2, 2008

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
O de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?

Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo de bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena

José Fanha (org.)

De palavra em punho

Porto, Campo das Letras, 2004

 

Posted by Mestre at 21:52:12
Comments

One Response to “Natal de 1971”

  1. paulo faria says:

    Este poema tem uma mensagem muito forte. Exige que se leia e releia, que se pense e se escreva a propósito…

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